2.8.06

Doçuras quixotescas

Quem já jogou Fahrenheit - e quem não jogou, o faça - já deve ter reparado em músicas bastante agradáveis durante alguns dos cenários. Uma delas me chamou atenção especial: Uma voz feminina possuidora de um delicioso sotaque britânico cantando uma canção cheia de melancolia, acompanhada por um arranjo eletronicamente acústico. Depois de rodar as fases procurando bonus points para desbloquear toda a trilha sonora da seção de "extras" do jogo, descobri de quem se tratava.

Martina Topley-Bird, a dona da voz, já era algo conhecida por aí por contribuições em alguns álbuns bem sucedidos, tais como Damage, de Jon Spencer Blues Explosion, e Demon Days, do Gorillaz. Suas principais aparições antes de gravar seu primeiro disco próprio, porém, eram ao lado de um dos principais expoentes do Trip Hop, Tricky.

Já em Quixotic, o primeiro album de Martina, Tricky retribui a participação cantando em uma das faixas, Ragga - faixa que, originalmente, levaria o mesmo nome do album - , além de participar da produção de várias outras. Como uma deliciosa surpresa (para mim, ao menos, que só descobri isso após uma ou duas ouvidas), dois outros convidados figuram na faixa Need One, a segunda do album: A paranóica guitarra de Josh Homme e a esfumaçante voz de Mark Lanegan, dois elementos que já se cruzaram bastante por aí.

Quixotic bate como um tapa bem dado - carinhosamente forte. Logo na primeira faixa, curta e direta - chamada simplesmente de Intro - é possível ouvir uma sensacional mistura entre soul, blues, folk, pop, e tudo mais aquilo que o ouvinte quiser identificar, e segue para a segunda faixa, que se inicia com um riff tipicamente Hommiano.

Após a agitação das duas primeiras faixas, o disco segue um caminho mais melancólico e instrospectivo, passando desde o clima cinquentista de Soul Food até leve pegada Blues de Too Tough To Die, culminando na sombria Sandpaper Kisses (a música citada no primeiro parágrafo). Já Ragga, com a ajuda de Tricky, segue num ritmo mais quebrado, fazendo jus ao "Hop" do Trip Hop.

Enquanto a primeira porção do disco pende para um lado mais Soul, a segunda apresenta mais timbres eletrônicos, mas sem necessariamente deixar a melancolia de lado. Ilya soa mais como um desabafo bêbado de desamor, finalizando-se no quase mantra "you know we were wrong together".

I Wanna Be There, a penúltima faixa, é provavelmente o momento mais rock do disco. Estoura com suas guitarras desleixadas, batidas rápidas e vocais distorcidos, de tal forma que bem poderia ser uma canção do Yeah Yeah Yeahs, e abre caminho para a última canção do disco, Days of a Gun. Esta começa com um som de teclado de celular do meu total desagrado, mas tem uma melodia agradável e um certo tom de despedida.

Como um todo, o disco é ótimo. Quatro estrelas e meia, se fosse pra classificar de zero a cinco. Surpreende, deixa o ouvido zumbindo e dá vontade de ficar ouvindo repetidamente.

Edit: Dois vídeos de Martina para vocês: Need One e Anything.